Por Célio Barcellos
Em 13 de março de 2013, o mundo voltou seus olhos para o Vaticano. O argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa e adotou o nome de Francisco, ao suceder Bento XVI (Joseph Ratzinger).
O Conclave foi surpreendentemente rápido, durando menos de 24 horas. Na Argentina, a notícia foi recebida com euforia: pela primeira vez, um sul-americano assumia o comando da Igreja Católica. O tango virou cântico de celebração espiritual.
Confesso, como adventista, que senti um leve incômodo — uma “dor de cotovelo” espiritual.
Enquanto a Argentina vibrava em sua “La Bombonera” religiosa, meu “Maracanã” espiritual parecia vazio.

Aquela imagem de um líder sul-americano no centro das atenções religiosas despertou em mim um desejo antigo: ver um brasileiro presidir a Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia (a sede mundial da denominação fica em Silver Spring, Maryland (EUA).
Em 1995, em meu primeiro ano como adventista, lembro-me nitidamente do sábado em que assisti a um resumo da Conferência Geral de Utrecht (Holanda), por meio de uma fita VHS, na casa do saudoso irmão Mercino, em Braço do Rio (ES).
Naquele final de tarde, senti uma emoção profunda. As músicas, as pregações, os bastidores, tudo transmitido pela televisão, criaram uma atmosfera celestial no meu coração. Orei sozinho e disse a Deus: “Um dia estarei em um evento assim.”
Parecia um sonho distante. Mas em 2015, Deus me deu essa honra. Estive presente na 60ª Assembleia da Conferência Geral, em San Antonio, Texas. O clima era tenso. Discussões sobre a ordenação feminina esquentavam os bastidores.

Havia boatos de que a CNN estaria presente. Apesar disso, vi claramente o mover do Espírito sobre a igreja e em seus delegados. O Pr. Ted Wilson foi reeleito. Ainda não era a vez de um brasileiro…
Mesmo não sendo delegado, acompanhei quase tudo do evento. As compras e passeios foram secundários — minha mente e meu coração estavam no Alamo Dome Stadium, onde 70 mil pessoas viviam uma experiência espiritual profunda.
Diferente da Igreja Católica, a Igreja Adventista não escolhe seus líderes por Conclave. O processo envolve cerca de 2 mil delegados de todas as partes do mundo.
É um sistema representativo — imperfeito, sim, mas guiado pela oração e pela missão. E agora, em 04 de julho deste ano, finalmente aconteceu: o brasileiro Erton Khöler, natural de Caxias do Sul (RS), foi eleito presidente mundial da igreja.

Khöler tem mais de 30 anos de dedicação à igreja. Foi pastor, líder jovem, secretário executivo e presidente da Divisão Sul-Americana. Agora, assume o desafio de liderar uma igreja global em tempos de polarização, com a tarefa de promover a unidade pela ação do Espírito Santo.
Em uma de suas falas, Khöler afirmou: “Os recursos financeiros precisam acompanhar a missão, e não o contrário.” Essa frase revela a visão que nos inspira: uma igreja voltada para a missão, não para a estrutura.
Particularmente, sonho com uma igreja mais simples, cheia do Espírito, como no livro de Atos — com homens e mulheres que vivam para servir, curar, ensinar e pregar. Isso começa com a liderança, mas se estende a cada lar, igreja local e campo administrativo.
Apesar de jovem (fundada em 1863), com apenas 162 anos, a Igreja Adventista alcança mais de 20 milhões de membros em mais de 200 países.

Esse crescimento tem como base quatro pilares missionais:
1. Colportagem – evangelismo literário, herança dos valdenses.
2. Igreja Local – o coração do movimento.
3. Obra Médico-Missionária – cuidado integral com as pessoas.
4. Educação Cristã – que transforma e salva para a eternidade.
Graças a esses pilares, a igreja saiu do anonimato rural dos EUA e se tornou uma força evangelizadora mundial. No campo protestante, é a maior rede educacional e de saúde do planeta.

Se o foco do novo presidente é a missão mundial, que comece por fortalecer a educação cristã nos lares, formando membros preparados para os desafios culturais e espirituais da atualidade. E que os irmãos assimilem o processo de discipulado para o Reino.
No contexto da Reforma Protestante, Lutero, com uma Bíblia e um hinário sacudiu o mundo. E se hoje líderes e membros se colocarem nas mãos de Deus, veremos uma explosão de fé e milagres com o poder da mensagem da Cruz.
Em tempos de inteligência artificial e transumanismo, precisamos manter firme nossa cosmovisão bíblica. A missão da igreja é mais urgente do que nunca. Precisamos voltar ao “Assim diz o Senhor”, pregar a mensagem da cruz, viver em santidade, e manter nossa identidade profética.
Afinal, mesmo quando a escolha de líderes é influenciada por pressões humanas, devemos nos lembrar: não é o homem quem conduz a igreja, é o Espírito Santo. O futuro do evangelho não depende de preferências humanas, mas da dependência total de Deus.
Que o pastor Erton Khöler seja grandemente usado pelo Senhor. Que sua liderança seja cheia de graça, sabedoria e coragem. E que a igreja, sob sua liderança e guiada pelo Espírito Santo, avance com poder rumo à breve volta de Cristo.